
Sonhar que perde algo: o que significa esse sonho?
O que significa sonhar que perde a carteira, o celular ou algo importante: leitura psicológica e o olhar de diferentes tradições sobre esse sonho.
Equipe editorial da Somnovis
Perder a carteira, o celular ou algum objeto importante em sonho é um dos pesadelos mais banais que existem — e talvez por isso mesmo tão incômodo: poderia acontecer de verdade, o que o torna especialmente palpável. O que geralmente importa não é o objeto em si, mas o que ele representa na vida de quem sonha.
Perder algo de valor afetivo. Quando o que se perde é uma lembrança de família ou um presente especial, o sonho costuma indicar o medo de perder uma parte da própria identidade ou de um relacionamento importante — não o objeto propriamente dito.
A busca desesperada sem resultado. Um sonho centrado numa procura inútil costuma refletir uma sensação real de impotência — uma situação na vida desperta em que algo importante parece fora de alcance, por mais esforço que se faça.
Perder algo sem saber o quê. É a variante mais desconfortável e a mais reveladora: quem sonha sabe que falta alguma coisa e não consegue nomeá-la. Vale registrar que a vagueza não é falha de construção do sonho — é o conteúdo dele, e as duas primeiras tradições abaixo tratam justamente disso.
Perder de propósito, sem admitir. Aqui a atribuição é precisa e não é junguiana: em A psicopatologia da vida cotidiana, Freud sustentou que extraviar e perder coisas são atos motivados — que as pessoas perdem aquilo com que terminaram sem terem dito a si mesmas que terminaram, e o exemplo dele é perder um presente de alguém com quem se rompeu. É afirmação de Freud, no livro de Freud, e fica ao lado da leitura analítica em vez de dentro dela: uma escola lê a perda como algo que se retira de quem sonha, a outra como quem sonha se desfazendo de algo.
O que muda a leitura. Se o objeto tinha nome; se a busca terminou; e se quem sonha sabia, no sonho, o que estava procurando.
O que esse sonho não significa. Não avisa que algo será perdido de verdade.
Perspectivas de diferentes tradições
Esta tradição tem uma categoria real e também um limite estrutural real, e o limite é a metade mais interessante.
A coisa perdida é categoria jurídica definida — a ḍālla, o extraviado — e um dito de longa circulação a usa como figura: a sabedoria é a coisa perdida do crente, e onde quer que a encontre ele tem melhor direito a ela. Circula como relato e a sua classificação é disputada; vale como dito corrente na tradição, e não como relato seguro. O que ele diz é que uma coisa perdida não está acabada, está devida — e que procurá-la é uma reivindicação, e não uma esperança.
O limite estrutural: a interpretação islâmica de sonhos lê o objeto identificado. Uma chave, um anel, uma veste, um dente têm cada um as suas leituras, e o intérprete alcança o sentido de uma perda através da coisa perdida. Um sonho de perder algo sem nome é, portanto, quase a única forma que esse método não consegue processar — e dizer isso é frase mais verdadeira do que qualquer leitura genérica. A tradição está quase calada aqui, e está calada por um motivo que diz algo sobre como ela funciona.
O que ela fornece para a perda enquanto tal não é interpretação, é fórmula: as palavras ditas ao perder ou ser privado de qualquer coisa — «a Deus pertencemos e a Ele retornamos». São corânicas, fixas e citáveis, e é o que um muçulmano de fato diz quando perde algo: na prática, coisa mais próxima do que qualquer verbete de compêndio.
Aqui Jung pode ser nomeado e o termo é dele: ele tomou da literatura etnográfica a expressão «perda da alma» e a usou para uma condição clínica real — uma pessoa da qual alguma porção de energia psíquica se retirou, que não está doente de nada que se possa nomear mas está diminuída, e que não consegue dizer o que falta. É uso genuinamente seu, e é exatamente a experiência que este sonho encena: a vagueza do objeto não é defeito de construção, é o conteúdo.
A procura em si é lida como o movimento da psique de volta na direção daquilo que se retirou, e uma busca que não encontra nada não é resultado negativo. Numa leitura compensatória, um sonho que encena uma busca interminável está afirmando que a coisa ainda não pode ser nomeada — o que é diferente de afirmar que ela se foi. Por isso a insistência do sonho costuma valer mais do que o seu desfecho.
Os manuais chineses indexam objetos identificados exatamente como o corpus islâmico faz — perder um chapéu, um sapato, uma faca, um selo têm cada um o seu feitio de leitura —, de modo que vale a mesma observação honesta: uma perda sem nome não é categoria desses livros. Leituras deste feitio, um objeto perdido e não recuperado na direção de um assunto escapando das mãos, e um recuperado na direção da restituição, são paráfrases de um feitio e é até onde o registro dos manuais vai.
O material popular que trata genuinamente de perder algo imaterial é a perda de alma, e é prática, não ditado. De uma criança que levou um susto se diz que perdeu parte da alma, 「丢魂」 (diū hún), e o remédio é 「叫魂」 (jiào hún), chamá-la de volta pelo nome. Isso é remédio para uma criança assustada, e não categoria dos livros de sonhos — equiparar as duas coisas seria dizer que sonhar com uma perda que não se sabe nomear é aquilo, e não é. O que se pode dizer é que a cultura tem nome e rito para perder algo imaterial, e que isso não é leitura de sonho. O idioma corrente derivado dele é 「失魂落魄」 (shī hún luò pò, «alma perdida, ânimo caído»), dito de alguém desnorteado que não está funcionando, e serve como descrição de estado.
No polo da recuperação o chinês é generoso e nenhuma dessas frases é agouro: 「旧的不去,新的不来」 (jiù de bù qù, xīn de bù lái, «se o velho não vai, o novo não vem») é o consolo corrente diante de uma perda, e 「失之东隅,收之桑榆」 (shī zhī dōng yú, shōu zhī sāng yú, «perdido na esquina do leste, recolhido entre a amoreira e o olmo») diz de uma perda sofrida ao amanhecer e compensada ao entardecer. São ditos sobre conduta depois de uma perda, e não presságios de uma.
Uma ressalva sobre a lógica de inversão que costuma ser invocada nestas páginas — a de que o sonho anuncia o contrário do que mostra. Ela existe e é corrente, mas está entre os recursos mais gastos deste tipo de leitura. O que se pode afirmar com segurança é mais estreito: o uso popular não trata um sonho de perda como previsão de que uma perda vá acontecer.
Fontes
As seções sobre tradições se apoiam nestas obras. Isso não significa que cada frase seja uma citação delas. A autoria do tratado atribuído a Ibn Sirin é disputada. O manual chinês é parafraseado: o texto muda conforme a versão, então não se cita edição, capítulo nem data.
- Artemidorus of Daldis, Oneirocritica (2nd century).
- Muntakhab al-Kalām fī Tafsīr al-Aḥlām, the dream book attributed to Ibn Sirin.
- Zhou Gong Jie Meng (周公解梦).
- C. G. Jung, Man and His Symbols (1964), and the Collected Works.
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